Muitos motoristas ainda acreditam que veículos elétricos eliminam completamente a necessidade de lubrificantes. A realidade, porém, é bem diferente. Embora o motor elétrico não use óleo como os motores a combustão, o conjunto de transmissão, por exemplo, exige fluidos altamente especializados para lubrificação, refrigeração e isolamento elétrico.

E justamente para desmistificar tudo que envolve lubrificantes para carros elétricos e eletrificados, desde utilização correta, especificações, importância e visões de mercado, o Óleo Certo preparou três entrevistas especiais sobre o tema. Abrindo a série, Leandro H. Benvenutti, especialista de produto na Infineum, traz uma visão geral sobre a importância do lubrificante correto no universo dos elétricos.  Confira a seguir:

Óleo Certo: Por não terem motores a combustão, algumas pessoas pensam que os carros elétricos não necessitam de lubrificantes. Esses veículos demandam algum tipo de lubrificação em quais componentes?

Leandro H. Benvenutti: Os carros elétricos não eliminam a necessidade de lubrificação. Embora os motores elétricos, por si só, não exijam óleo, a operação desses veículos depende de uma caixa de redução que substitui a transmissão convencional.

Nos modelos modernos, essa caixa de redução — composta por engrenagens e, em alguns casos, embreagens — é integrada ao motor elétrico e à unidade de potência. Esse conjunto, conhecido como EDU (Electric Drive Unit) ou eAxle [eixo elétrico], exige fluidos especializados para garantir o perfeito funcionamento da transmissão e promover a refrigeração adequada do motor elétrico. Isso assegura performance, eficiência e durabilidade ao sistema.

Óleo Certo: Qual é o papel principal dos lubrificantes nos motores elétricos, especialmente considerando as altas rotações que podem chegar a 12.000 RPM?

Leandro H. Benvenutti: Conforme mencionado, o conjunto formado por motor elétrico, caixa de redução e unidade de potência depende de um lubrificante especialmente formulado.

A combinação de altas rotações, tipicamente entre 10.000 e 18.000 RPM, podendo ultrapassar 20.000 RPM em certos sistemas, e óleos de baixa viscosidade, entre 3 e 6 cSt (a 100°C), torna fundamental uma performance superior em controle de desgaste, evitando danos aos componentes.

Outro aspecto crítico é o controle de formação de espuma, já que a elevada rotação aumenta essa tendência, exigindo aditivos antiespumantes de alta eficiência.

Óleo Certo: Por que os lubrificantes em carros elétricos precisam ser dielétricos e como isso impacta a segurança do veículo?

Leandro H. Benvenutti: Os motores elétricos de veículos modernos operam em tensões elevadas e são frequentemente resfriados diretamente pelo óleo da transmissão. Por isso, o fluido precisa ser dielétrico, ou seja, não condutor de eletricidade. Se um fluido condutor fosse utilizado, haveria fuga de corrente, representando riscos aos ocupantes e reduzindo a eficiência do sistema por perdas elétricas. O requisito de isolamento elétrico aparece nas especificações técnicas como “resistividade volumétrica”, que é o inverso da condutividade elétrica e objeto de estudo para definição de limites mínimos e máximos adequados.

Óleo Certo: Quais são os principais benefícios dos lubrificantes sintéticos usados em carros elétricos?

Leandro H. Benvenutti: As bases sintéticas trazem uma série de vantagens:

  • Maior estabilidade térmica e oxidativa, o que aumenta a vida útil do fluido — podendo ultrapassar 100.000 km sem troca;
  • Melhor condutividade térmica e maior resistividade volumétrica, contribuindo simultaneamente para a eficiência de resfriamento e para o isolamento elétrico;
  • Algumas bases, como as Polialfaolefinas (PAO), apresentam menor coeficiente de tração, reduzindo perdas por arrasto sob pressão e aumentando a eficiência energética do sistema.

Óleo Certo: Como os lubrificantes para carros elétricos diferem dos óleos usados em motores a combustão?

Leandro H. Benvenutti: Os requisitos dos óleos de motor de combustão são muito distintos dos fluidos utilizados em transmissões de veículos elétricos. Nos motores a combustão, os lubrificantes precisam lidar com contaminantes provenientes da queima de combustível — ácidos, fuligem, depósitos, água, combustível não queimado — exigindo aditivos detergentes, dispersantes e neutralizantes específicos.

Já os fluidos das transmissões dos carros elétricos não sofrem esse tipo de contaminação, mas apresentam outras demandas igualmente complexas, como:

  • Controle de desgaste e de pressão extrema;
  • Requisitos de atrito especializados;
  • Elevada compatibilidade com cobre;
  • Capacidade de troca térmica para resfriar o motor elétrico;
  • Isolamento elétrico adequado.

Óleo Certo: Como os lubrificantes contribuem para o resfriamento das baterias e da transmissão, e por que isso é crucial para a eficiência energética?

Leandro H. Benvenutti: As baterias são normalmente refrigeradas por fluidos específicos, em um circuito separado da transmissão. Já a caixa de redução, que frequentemente compartilha o invólucro com o motor elétrico, é refrigerada pelo fluido de transmissão.

Controlar a temperatura do motor elétrico é essencial para sua eficiência. O aquecimento ocorre principalmente pelo efeito Joule [fenômeno físico no qual a passagem de corrente elétrica por um material condutor se transforma em energia térmica gerando calor]; como a condutividade do cobre diminui com o aumento da temperatura, as perdas ôhmicas aumentam, reduzindo a eficiência do sistema.

Fluidos de ultrabaixa viscosidade têm demonstrado excelente desempenho em resfriamento, pois permitem maior fluxo e melhor transferência de calor dentro do conjunto.

Óleo Certo: Quais tipos de lubrificantes são recomendados para transmissões de uma única marcha em carros elétricos?

Leandro H. Benvenutti: Esses lubrificantes precisam atender aos requisitos relevantes tradicionais dos fluidos de transmissão automática, somados às necessidades específicas dos EVs, como:

  • Baixa viscosidade;
  • Ótima performance antidesgaste;
  • Alta resistência à oxidação;
  • Excelente performance antiespumante;
  • Forte compatibilidade com cobre;
  • Baixa condutividade elétrica.

Em resumo, trata-se de um fluido especializado, que atende os requisitos tradicionais e ao mesmo tempo que incorpora diversos requisitos de performance de adicionais dos veículos elétricos.

Óleo Certo: Os lubrificantes ajudam a reduzir ruído e vibração NVH (Noise, Vibration and Harshness – Ruído, Vibração e Aspereza) nos carros elétricos?

Leandro H. Benvenutti: Sim. Como os motores elétricos são naturalmente mais silenciosos que os motores a combustão, os ruídos provenientes das engrenagens da caixa de redução tornam-se mais perceptíveis.

O lubrificante forma um filme protetor que suaviza o contato entre as superfícies metálicas, reduzindo microimpactos e, portanto, o ruído e a vibração. A escolha da base e dos modificadores de viscosidade também influencia o comportamento NVH, contribuindo para uma experiência de condução mais confortável.

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