
Diferente de escolher um bom lubrificante, que, sabemos, deve sempre seguir o recomendado pelo manual do veículo, decidir por qual automóvel comprar pode ir bem além de um simples gosto, ou preferência.
Convenhamos, há pouco tempo, no fim do século passado, escolher um carro era algo bem mais simples do que nos dias atuais. Em décadas passadas, havia no país, basicamente, quatro grandes montadoras nacionais que dominavam o mercado, com importações praticamente inexistentes. Trafegar nessa escolha se resumia a decidir entre um motor com quatro ou seis cilindros, tração dianteira ou traseira, número de portas e as cores, que eram bem mais variadas e interessantes, diga-se de passagem.
Na virada do século, surgiu a opção por maior conforto nos veículos, popularmente chamado de “kit dignidade”, que basicamente incluía: ar condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos.
Somado a isso, com o passar dos anos, a tecnologia explodiu para o inimaginável e as opções, hoje, são inúmeras. Assim, o cenário atual para a compra de um carro novo envolve a busca por produtos que atendam necessidades específicas e, principalmente, muita leitura de mídia especializada.
Mas afinal, com a oferta de um leque tecnológico tão vasto no mercado automotivo, você sabe o que está comprando, ou o que realmente tem embaixo do capô do seu veículo? Essa pergunta é muito importante, caso não queira ter surpresas desagradáveis na hora de fazer a manutenção do seu carro. Não duvide, pois elas chegam e fora da garantia nem tudo são flores!
Primeiro de tudo: analise suas necessidades
Antes de qualquer coisa, pergunte-se: para que eu quero um carro? Seu uso, poder financeiro e sabedoria vão ajudar bastante na resposta. Viajo muito, ou ando só na cidade? Com família, ou vivo só? Um offroad eventual nos fins de semana? Para essa última situação, por exemplo, um modelo diesel 4X4 com reduzida pode ser o mais indicado.
O importante é traçar um perfil do seu modelo alvo e conhecer os concorrentes. Um bom conselho é resistir às investidas dos vendedores e da publicidade, que te capturam pela emoção. Lembre-se: a razão sempre oferece uma saída melhor.
Quando tiver alguns modelos em vista, consulte a internet, o Reclame Aqui , sites especializados e outras informações como custo do seguro, etc. É bom ver, também, as tabelas de preços e desvalorização ao longo dos anos. Para evitar os micos, fique atento. Considere novos e seminovos. Os primeiros têm garantia, mas são mais caros. Os usados podem oferecer bom desconto, mas exigem atenção e vistorias profissionais, verificação de componentes caros, como bicos injetores, bomba de combustível de alta pressão, pneus, etc.
E, claro, o consumo de combustível impacta diretamente no dia a dia. Modelos com motores mais potentes, ou que rodam pouco por litro, podem parecer tentadores na concessionária, mas se revelam caros na prática.
Sem surpresas no bolso: novas tecnologias exigem novas formas de manutenção
No passado, a simplicidade e imagem da marca definiam as compras. Álcool (nessa época, essa era a nomenclatura para o etanol), ou gasolina. Quem sabe um diesel em motor grande e fumacento. Depois, flex com injeção eletrônica, importação a mil e dúzias de modelos à disposição. Altos, baixos, automáticos, ou manuais, eles lotaram as ruas e confundiram compradores deslumbrados com a oferta. Isso sem contar os atuais elétricos e híbridos.
Diante de tanto avanço, tenha em mente que modelos cheios de sensores, comandos eletrônicos e telas digitais podem oferecer conforto e sofisticação, mas, por outro lado, também significam consertos bem mais caros do que no passado. Não se espante se um simples reparo no sistema de som, ou em uma câmera de ré, possa custar um valor bem acima do esperado. A dica é avaliar se você realmente precisa de todos os equipamentos oferecidos e se está disposto a arcar com a manutenção deles caso venham a dar problema.
E a tecnologia por debaixo do capô. Você desconfia o que pode ou não dar dor de cabeça no futuro? O carro que deseja comprar tem três cilindros com correia dentada banhada no óleo? Se sim, sabe-se que o custo da troca desse componente é mais alto do que em outros motores cuja peça é externa. Além disso, nos motores com correias de distribuição banhadas a óleo, seguir à risca o que prega o manual é o melhor a ser feito, pois a garantia não cobre se o lubrificante utilizado não for o recomendado pelo fabricante.
Vamos apimentar um pouco mais: o carro que você deseja tem turbo?
Como citei anteriormente, a presença de um maior número de peças pode, sim, incrementar o valor da manutenção. Os motores turbos, por trabalharem sob condições que demandam mais de seus componentes, precisam de um carinho extra na manutenção para evitar problemas futuros. Lembre-se que esses motores também são de injeção direta de combustível, que requerem novos componentes além do turbo, como: intercooler, bomba de alta pressão de combustível, bicos injetores de alta pressão e bomba de vácuo.
Por isso, recomendo que leia o manual para entender qual tipo de manutenção será exigida, incluindo a troca dos fluidos, respectivos períodos de troca entre outros aspectos importantes.
E os elétricos e híbridos? Eles estão nas ruas e, sim, requerem atenção a vários pontos, principalmente no que diz respeito à bateria, custo do seguro, instalação elétrica de pontos de recarga em condomínios e residência, além, é claro, do valor de revenda.
Dicas que podem ajudar
Alguns equívocos podem ser evitados se, ao comprar um carro novo, você estudar a fundo o modelo, seus pontos críticos de manutenção e, em especial, os custos de peças e componentes importantes. Abaixo, listo algumas dicas que podem ajudar.
- Escolha o seu veículo muito bem informado e não vale informação do vendedor. Procure informações abundantes na internet em sites especializados para não comprar um mico;
- A mecânica mudou muito. Temos motores menores, de três cilindros turbo. Delícias ao acelerar, mas que requerem atenção para manter;
- Carros a diesel custam bem mais e o combustível não é mais tão atrativo assim. Pesquise bem o seu custo/benefício;
- Com as tecnologias, vieram os preços e, assim, considere o custo por quilômetro rodado;
- Verifique a depreciação pela tabela FIPE, uma boa referência;
- Pesquise os custos da proteção do seguro;
- Ao optar por um modelo elétrico, lembre-se que ele é mais caro, embora dilua o custo ao longo do tempo. Certifique-se de que sua casa ou trabalho pode ter carregador deste modelo. E se viajar grandes distâncias, avalie autonomia e tempo de recarga. Se for usar na cidade, fica mais fácil. Considere, ainda, que depois de anos, esses carros desvalorizam muito.
- Os híbridos estão em oferta. A maior fabricante do mundo, aliás, não faz elétricos puros. Só híbridos, e aposta nos motores a hidrogênio que estão por vir. Esses motores são de combustão interna, como os que já conhecemos, com pequenas modificações. Já existem usinas piloto e a distribuição pode ser feita como a do GNV.
- Outro passo é escolher a transmissão. Automático (convencional, CVT ou de dupla embreagem) e automatizado, atualmente em desuso, estão tomando o lugar do câmbio manual, que ainda resiste. Veja qual é o seu estilo, conforto nos engarrafamentos e ansiedades pessoais. Afinal, gosto não se discute. (Saiba quando fazer a troca de fluido em veículo com transmissão CVT).
Marcellus Leitão é jornalista especializado em automóveis, já tendo atuado em importantes veículos de imprensa.