Entenda por que a escolha do lubrificante errado pode ser uma bomba-relógio

A utilização e a troca de óleo lubrificante são ações que fazem toda a diferença para a qualidade, durabilidade e manutenção do seu veículo. “Diferentemente do combustível, que dá logo sinal de que algo está errado, o óleo errado funciona como uma bomba relógio, que causará prejuízo lá na frente”. O alerta é do engenheiro químico e especialista em lubrificantes, Pedro Nelson Belmiro. Nesta entrevista exclusiva ao Óleo Certo, Pedro Belmiro, editor da revista Lubes em Foco e do portal Lubes, autor do livro “Lubrificantes e Lubrificação Industrial” e professor do curso de lubrificantes do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), destaca vários aspectos importantes que o consumidor deve ficar atento na hora de escolher e utilizar um óleo lubrificante.

Afinal, do que é composto um óleo lubrificante de motor e quais características ele deve ter?

Pedro Belmiro: o óleo lubrificante é uma mistura de uma base, que pode ser óleo mineral proveniente do petróleo, ou produtos químicos sintéticos, com vários aditivos, que vão melhorar, modificar, ou mesmo adicionar algumas propriedades a essas bases. Um óleo lubrificante deve ser observado segundo dois princípios básicos: sua viscosidade e seu desempenho. A viscosidade é relacionada às bases utilizadas e o desempenho aos aditivos de sua formulação. Dependendo da aplicação, ou equipamento a que o óleo será submetido, além do resultado que se deseja obter, essas características podem variar bastante, gerando daí uma enorme gama de produtos específicos e que podem até confundir o consumidor.

Qual as funções de um lubrificante no veículo?

Pedro Belmiro: basicamente, a função de um óleo lubrificante é lidar com os problemas causados pelo atrito entre partes metálicas do motor. Dessa forma, podemos dizer que um óleo tem várias funções importantes em sua atuação, tais como: reduzir o atrito e o desgaste, limpar e manter limpo o motor, evitar a corrosão interna, refrigerar o motor, reduzir ruído, vedar os anéis de compressão e, além de tudo, fornecer informações por meio de sua análise, assim como o sangue informa como estão as condições do corpo humano.

Por que usar o óleo lubrificante correto no veículo ajuda muito na durabilidade do motor?

Pedro Belmiro: a durabilidade de um motor está diretamente relacionada ao nível de desgaste e deterioração de suas peças móveis que, além da metalurgia envolvida, têm como fator importante a atuação e funções do óleo lubrificante. Por isso, a indicação de um óleo lubrificante leva em consideração o tipo de motor, pressões e temperaturas de operação, além do tipo de operação que o veículo estará efetuando.

Carro novo, carro antigo, quilometragem alta, clima, frequência de uso do veículo, etc. Como o consumidor pode saber qual é o óleo lubrificante correto para o seu veículo?

Pedro Belmiro: é uma tarefa bastante complicada e difícil para o consumidor que não está – e nem precisa estar – informado de toda a tecnologia envolvida na formulação de um óleo lubrificante. Os pesquisadores, os engenheiros e os químicos já fizeram esse trabalho para os fabricantes dos equipamentos, que tem todo o interesse que seus motores sejam corretamente lubrificados. Dessa forma, os fabricantes fazem suas recomendações ao consumidor, por meio do manual do veículo, que devem ser seguidas fielmente na hora da escolha do óleo certo para o seu carro.

Quais fatores influenciam na escolha do óleo e por quê?

Pedro Belmiro: a escolha da marca comercial geralmente se dá pela confiança que o consumidor tem no posto de serviço que utiliza, nos pontos específicos de troca de óleo ou no seu próprio mecânico. Ou seja, o fator confiabilidade é muito importante para essa escolha. Infelizmente ainda existem muitos consumidores que não têm qualquer critério para isso. Porém, acredita-se que a preocupação em fazer a coisa certa está aumentando.

O que diferencia um lubrificante para carros de alta quilometragem do indicado para os menos rodados, por exemplo?

Pedro Belmiro: normalmente, os carros com alta quilometragem já possuem um nível mais alto de folga entre as partes móveis, fazendo com que a película do lubrificante indicado pelo fabricante do motor não consiga mais executar as funções necessárias, principalmente de vedação, fazendo com que haja um maior consumo ou até mesmo queima de óleo. A utilização de um óleo com grau de viscosidade mais elevado para esses motores entra, então, como uma solução paliativa para esses casos, não sendo, portanto, algo definitivo. Alguns fabricantes de óleo até colocam alguns aditivos específicos para controlar a formação de depósitos e borras. Porém, é importante entender o caráter transitório dessa utilização até que uma retífica possa ser realizada.

Lubrificantes para veículos que rodam em cidades quentes, como o Rio de Janeiro, é o mesmo para os que trafegam em cidades mais frias?

Pedro Belmiro: sim. Não teria sentido recomendar um óleo diferente para diferentes cidades, ou temperaturas ambientes. A principal questão hoje é a partida do motor em baixas temperaturas. Por isso, as viscosidades dos óleos recomendados para os motores modernos estão cada vez menores.

Então, motores modernos precisam de óleos específicos? Mais finos?

Pedro Belmiro: exatamente. Um óleo mais “fino”, ou seja, com uma viscosidade mais baixa, chega mais rápido às partes superiores do motor no momento da partida, que é quando acontece o maior desgaste do equipamento. Quase todos os veículos já saem de suas fábricas com óleos lubrificantes de viscosidade no máximo SAE 5W-30. Além disso, com o passar do tempo, os motores modernos foram ficando cada vez menores, com menos volume de óleo, com pressões e temperaturas mais elevadas e menor ventilação, causando um grande “estresse” ao lubrificante. Por isso, não podemos nos iludir quando vemos um carro com motor 1.0 e associá-lo ao uso de um óleo “popular”. Pelo contrário, esse óleo precisa de muita tecnologia envolvida para manter um bom desempenho nessas condições.

Quais prejuízos, na prática, decorrem da escolha errada do lubrificante?

Pedro Belmiro: diferentemente do combustível, que dá logo sinal de que algo está errado, o óleo errado funciona como uma bomba relógio, que causará prejuízo lá na frente. Muito importante ao falar de óleo certo é mencionar o nível de desempenho dele, e não somente a viscosidade. Esses níveis são medidos por testes de laboratório, de motores e de campo realizados pelos fabricantes e padronizados por entidades específicas como API, nos Estados Unidos; ACEA, na Europa; e JASO, no Japão. Também os chineses estão desenvolvendo seus próprios padrões. Atualmente, os fabricantes de veículos colocam as suas próprias especificações, e é bem comum encontrar automóveis com a recomendação de um óleo com a marca do fabricante do motor. A escolha errada de um óleo fará com que seu desempenho não consiga lidar com as exigências do motor criando, consequentemente, problemas como formação de depósitos, desgaste elevado, aumento de temperatura, aumento de consumo de combustível e até mesmo a quebra do motor.

E os veículos movidos à energia elétrica, renovável, ou híbridos? Eles precisam de óleos lubrificantes especiais?

Pedro Belmiro: obviamente, os veículos 100% elétricos não utilizam motores à combustão e consequentemente não necessitam de óleo, mas algumas partes precisam ainda de algum tipo de graxa lubrificante. No caso dos híbridos, o motor a combustão continua operante e, portanto, usando óleo normalmente, só que com um consumo menor.

De que maneira o óleo lubrificante influencia no consumo de combustível?

Pedro Belmiro: a película do lubrificante que se localiza entre as partes metálicas, como pistões e camisa, por exemplo, deve ser espessa o suficiente para não permitir o contato de metal com metal, que provoca desgaste, porém não tão espessa que aumente a resistência interna entre suas moléculas, dificultando, assim, o movimento dos pistões. Ou seja, um óleo com viscosidade elevada fará com que o motor precise de mais energia para vencer também a resistência da película lubrificante, além do trabalho normal que executa. Dessa forma, aumenta também o consumo de combustível. Os fabricantes, então preocupados com o consumo de combustível e, consequentemente, com as emissões veiculares, estão requerendo óleos cada vez menos viscosos, ou seja, mais “finos”. E aí é que se torna crítico o desenvolvimento tecnológico de óleos básicos e aditivos para formular um óleo de baixa viscosidade que mantenha um filme lubrificante resistente e que também não evapore demasiadamente com o aumento da temperatura. Também é esse o motivo do crescimento da demanda por óleos sintéticos e semissintéticos.

Por que existem várias marcas de óleo lubrificante com as mesmas especificações?

Pedro Belmiro: o que conta realmente para um óleo ser considerado correto para o veículo são as especificações de viscosidade (SAE) e de desempenho, conforme as entidades padronizadoras (API, ACEA, etc.), e as exigências dos fabricantes de motores, que podem colocar seus próprios parâmetros. Assim, as empresas produtoras de óleos lubrificantes procuram desenvolver seus produtos visando ao atendimento dessas especificações, utilizando em suas formulações pacotes de aditivos já testados e aprovados, bem como óleos básicos adequados. Dessa forma, podemos encontrar no mercado várias marcas que atendem à mesma especificação, podendo haver variações nos processos de produção e de controle de qualidade.

Como o consumidor pode saber que uma marca é boa e de confiança? O que ele deve levar em conta?

Pedro Belmiro: todos os produtores e todos os óleos automotivos são registrados na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e recebem um número de registro. Além disso, a ANP faz um monitoramento da qualidade dos lubrificantes, coletando e testando amostras em seu laboratório. O consumidor pode conferir no rótulo se o óleo que está usando atende às especificações recomendadas pelo fabricante do veículo e também se tem o número de registro da ANP. É claro que existem diferentes estratégias de marketing entre as empresas distribuidoras no mercado, podendo ocasionar alguma variação de preços, mas nunca uma diferença absurda. Portanto, deve-se desconfiar de produtos com preços muito abaixo da média praticada pelo mercado, e procurar buscar óleos de empresas confiáveis. Isso independe do tamanho da marca. É interessante que o consumidor, uma vez atingido um bom nível de confiança, não fique mudando constantemente de marca, simplesmente por um preço menor.

Por Antonio Carlos Teixeira

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